As Crônicas De Maria, Excerto 1

Maria olhou através de sua janela, admirando-se ao contemplar uma rua repleta de movimento além da tristeza esculpida em seu próprio rosto. Tratava-se de um mar de pessoas que iam e vinham, crianças que brincavam, cães que corriam, pássaros que plainavam sobre um mundo de movimento.

Um leve sorriso brotou então em sua face, obrigando-a a desviar o olhar de volta para o seu mundo, pois a ela não competia aquelas tantas qualidades que vislumbrava.

Acontece que as pernas da pequena Maria não a permitiam uma locomoção tão eficiente quanto a de outras pessoas, então o mundo do lado de fora de sua casa se tornou perigoso demais para ela, cujos pais não viram alternativa se não garantir, para o bem de sua saúde, que ela se mantivesse sempre sob a segurança de seu lar.

Isto posto, Maria buscava nunca passar muito tempo admirando o mundo exterior, uma vez que a contemplação acabava lhe trazendo um sentimento de saudade sobre algo que jamais poderia provar.

No dia em questão, um sábado dentro de um final de semana de sol, contudo, Maria se atreveu não apenas a olhar pela janela, sucumbindo às tantas maravilhas do cotidiano, mas então a abri-la.

A brisa foi a primeira a passar pela janela agora aberta, acariciando suavemente os cabelos da menina enquanto a cobria com um delicioso perfume de jasmim.

O segundo a passar pela janela foi um vivaz bem-te-vi. A criaturinha passou veloz por Maria e pousou sobre uma pequena mesa de canto, onde também repousava uma caixa de remédios essenciais. Sem aviso algum a ave tomou a caixa com seu bico e levantou voo, saindo pela mesma janela por onde entrou.

Neste momento Maria estava sozinha em sua casa, e dentro de poucos minutos ela precisaria tomar um daqueles comprimidos que foram levados, pois eram eles que mantinham o bom funcionamento de seu coração.

Qual dilema a pequena garota enfrentava; por um lado não era nem um pouco segura deixar o seu lar, por outro lado também não seria seguro ficar sem o remédio.

Eis que, então, um canto característico chamou a atenção da menina, era o bem-te-vi que a encarava e cantava desde uma árvore do outro lado da rua, como se a desafiasse a ir buscar o que ele havia roubado.

Sem muito tempo para pensar Maria levou a sua cadeira de rodas até a entrada de sua casa, destrancou e abriu a porta, levantou-se de sua cadeira, uma vez que ela não desceria por todos os degraus até a calçada, e começou a caminhar do jeito que conseguiu, rumo àquela mesma árvore onde o bem-te-vi a esperava.

(…)

– Denani, Daniel –

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